A Cegueira Branca

Um dia ao deslocar-me para o trabalho, ouvia no carro a Rádio Comercial, quando de repente, fazem a seguinte pergunta: Como gostaria de ser lembrada quando já não estivesse aqui?

Poderia parecer algo mórbido, mas a minha resposta veio rápida, límpida, como se já tivesse feito essa pergunta a mim mesma várias vezes… Gostaria de ser lembrada como uma sonhadora, que sempre lutou para realizar os seus sonhos!!

E se vou falar de realização de sonhos, tenho que vos falar dessa viagem… Sempre sonhei conhecer o Salar de Uyuni!! Quando falava no assunto, diziam-me: Salar de quê? O quê?

Que coisa mais esquisita com que eu havia de sonhar, mas… as imagens permaneciam lá na minha cabeça… brancas!! E o desejo acabou por tornar-se realidade, pelas mãos do Mário Pinto, e mais uma vez com a Jipaventura!!

E lá estava eu, outra vez a preparar as malas para seguir em direcção aos Andes! A lista de material era extensa: lanternas, lanterna de cabeça, canivete multifunções, óculos de sol, repelente de insectos, chapéu, lenço para pescoço, gorros, cachecol, luvas, sacos para o lixo, luvas de trabalho, medidor de pressão de ar dos pneus, kit de reparação de furos, duplicador de tomada de isqueiro, inversor de corrente, ligaduras, gaze gorda, comprimidos e mais comprimidos, tesoura, pinça, etc… etc… etc… A maior parte do material da lista, desejava fervorosamente não precisar usar!! Sossegava-me saber que tínhamos um telefone satélite para ser usado, mas apenas em caso de emergência…

Estávamos no mês de Maio, e ficaríamos 16 dias. Partimos em direcção à Bolívia! Uma hora de vôo até Madrid, mais 10h40min até o aeroporto de Viru Viru em Santa Cruz de La Sierra (tinha que falar o nome do aeroporto, achei muito engraçado) e ainda mais outro vôo interno de 45 minutos até Sucre.

Sem contar com os atrasos habituais dos vôos nessas localidades, chegamos finalmente a Sucre, a 5.ª cidade mais populosa do país. Tem cerca de 300.000 habitantes, dos quais 20% são estudantes. Foi a primeira cidade do país, e é a Capital Constitucional da Bolívia, embora o centro político (legislativo e executivo) esteja em La Paz, o que a torna capital de facto.

Durante a viagem surpreendia-me com a paisagem árida, mas de uma beleza descomunal! Ao chegar… fiquei estupefacta… no meio do nada… ao longe parecia ainda menor, parecia uma maqueta, era talvez o menor aeroporto que já tinha visto até hoje, e era o aeroporto novo!!

Foi o tempo de nos instalarmos no Hotel Independência e partirmos a descoberta de Sucre. O hotel está localizado num casarão antigo, do século XVI, em pleno centro da cidade.

O almoço foi algo rápido, na Plaza 25 de Mayo, o ponto central de Sucre. Não havia muito tempo para explorar a Cidade Branca.

A Plaza 25 de Mayo foi o palco da Proclamação da Independência da Bolívia. Em 1809 aconteceu ali o que ficou conhecido como o Primeiro Grito Libertário da América, por acaso, voltaríamos a Sucre em pleno dia da comemoração da data. Após a proclamação da Independência, a Bolívia permaneceu em luta e como parte da Espanha até 1825, quando foi libertada por Simon Bolivar, a quem o país deve o seu nome.

Sucre está a 2.810m de altitude, sendo uma das cidades mais altas da América Latina. A maior parte das atrações está concentrada no seu Centro Histórico, que desde 1991 faz parte do Património Mundial da UNESCO..

A Catedral Metropolitana fica mesmo na Plaza 25 de Mayo, destacando-se pela sua torre em estilo barroco. Ali funciona também o museu da Catedral, e o ingresso dá acesso à torre da catedral.

Visitamos alguns dos principais pontos turísticos da cidade: a Casa de la Libertad, a Biblioteca Nacional, a Iglesia de La Merced, e o Mercado Campesino.

Fiquei encantada com a cidade, todos os prédios pintados de branco, em bom estado de conservação, a cidade limpa e o povo boliviano… gente simples e muito carinhosa, traz consigo marcados, os traços da sua ascendência indígena, da sua cultura e tradições.

À noite alguns procuraram deitar-se mais cedo, a jornada tinha sido longa… outros aproveitaram para confraternizar num jantar no La Taverne, do Chef Alvaro Michel Loayza. Comida maravilhosa.

No dia seguinte começava a aventura, mas ainda em estrada alcatroada. Foi feito o levantamento dos jipes logo pela manhã. Eram 10 jipes, 6 com ocupantes portugueses e 4 com ocupantes franceses.

Alguns já conheciam outros participantes, outros não conheciam ninguém. No nosso caso só conhecia o Mário Pinto, da organização e o meu colega e grande amigo Queirós e esposa, que partilhariam connosco o jipe, nesta grande aventura. Mas ao fim de alguns dias, parecia que já nos conhecíamos todos há muito tempo… com alguns portugueses que não falavam a língua, a tentar “arranhar o francês” e manter uma conversação, e os franceses a mostrarem de dia para dia um incremento do seu vocabulário em português!!

A manhã foi toda ocupada com a entrega dos jipes, e compras no supermercado, que nos permitiriam improvisar algumas refeições, durante os próximos dias. Estaríamos em lugares inóspitos, sem apoio de restauração. Apenas os jantares estavam garantidos, nos hotéis onde pernoitaríamos. Esperavam-nos apenas 150km por estrada alcatroada até Potosí.

Os jipes alugados, a gasolina, contavam, com grade no tejadilho, jerrycans para transporte de combustível extra já cheios com gasolina, 2ª roda suplente e 1 compressor portátil para todos.

Instalamos as antenas exteriores e os rádios VHF, e partimos para a aventura!!

Aproveitamos para comprar um packed lunch no Metro Café para o nosso almoço! Os sanduíches, batidos/sucos e sobremesas são maravilhosos. Fizemos uma pausa no caminho para Potosí para o nosso almoço.

Ao fim da tarde, chegávamos a Potosí, os jipes eram enormes naquelas ruas estreitas do Centro Histórico de Potosí, só os nossos grandes motoristas, para conseguir colocar todos os jipes no pequeno parque de estacionamento do Hostel Colonial!

Fotos de Potosi acima by Gilbert Hatz

A Cidade de Potosí, situada na Cordilheira dos Andes, à altitude de 4.070 metros, é uma das cidades, geograficamente, mais altas do mundo.

A adaptação à altitude que foi feita em Sucre (2.810m), e os chás de coca logo pela manhã, foram suficientes, para que a maioria de nós não sofresse com o Sorojchi (o chamado mal de altura ou mal de montanha). Mas em Potosí, vi anúncios de comprimidos para o Sorojchi, continham ácido acetilsalicílico, salofeno e cafeína. Não foi preciso experimentar, dessa vez não tive qualquer sintoma, apesar das altitudes superiores àquelas em que estivemos no Peru.

Potosí é conhecida pelo seu vasto património arquitetónico. A Catedral Gótica de São Lourenço, a Casa da Moeda e a Universidade Tomás Frias são admirados mundialmente entre outros, e a cidade, em 1987, passou a integrar a lista do Património Mundial da UNESCO.

No século XVII Potosí era a cidade mais populosa do mundo, a riqueza circulava em suas ruas, devido a prata da montanha de Cerro Rico. A cidade chegou a possuir cerca de 150.000 habitantes, população superior a de Paris na época.

O trabalho das minas de Cerro Rico, era feito por indígenas escravizados. Dizem que muitos passavam meses lá dentro sem ver a luz do dia, e morriam em poucos anos vítimas de desnutrição, acidentes ou doenças pulmonares.

A prata de Potosi era considerada a de melhor qualidade do mundo e as moedas que vinham com o simbolo de Potosi (sobreposição das letras P,T e S, um símbolo muito parecido com o $), eram as mais valorizadas.

Actualmente Potosi vive da exploração de Estanho que ainda resta em Cerro Rico, e do Turismo. Mas não houve grande evolução nos métodos de extração do mineral, e muitos mineiros ainda trabalham em condições muito precárias.

Partimos pela manhã bem cedo, em direção a Colchani, junto ao tão esperado Salar de Uyuni!! Seriam 240km de estrada.

Pelo caminho começamos a avistar os primeiros lhamas, e formações geológicas fantásticas.

De repente, no caminho ouve-se pelo rádio, o grito de espanto da Nicole: “Magnific Marrrio, Magnific”!! Aqui soube pela primeira vez o significado da frase de boas vindas que tinha lido no aeroporto de Sucre na chegada: “Siente el latido de tu corazón”!! Tinhamos a nossa frente a primeira imagem do Salar de Uyuni, e nenhuma fotografia aproxima-se daquela imagem, que vinha acompanhada com o saltitar do meu coração!!

Seguiríamos para um cemitério de comboios, próximo ao Salar. Lá descansam locomotivas e vagões do século XIX, já enferrujados, ao longo da antiga linha férrea que ligava Uyuni e Antofagasta, para transporte de estanho e prata. Actuamente é um museu a céu aberto.

A partir daqui foi a despedida do alcatrão. Seguindo por uma pista que bordeja o Salar de Uyuni rumamos a Norte até Colchani. Dormimos num hotel de Sal com vista para o salar. O hotel Palácio de Sal, um hotel espetacular, todo construído com blocos de sal!!!. Tudo ali é fantástico: a proximidade do salar e a vista de dia e de noite, o conforto, os funcionários, a piscina interior e o serviço do bar e do restaurante!! No meio do nada… um verdadeiro Palácio de Sal!!

Dormimos bem… o bar do hotel era ótimo, não sei como se chamava o cocktail de boas vindas… mas era maravilhoso!! O jantar foi muito bom… estávamos excitados, mas felizes!! O dia seguinte seria para explorar o Salar!!

No dia seguinte, fizemos cerca de 250km, sempre no salar!! As chuvas que caíram na semana anterior, obrigaram a uma mudança na rota, visitamos o monumento ao Dakar, e a isla Incahuasi, também chamada Fish Island devido a sua forma de peixe. Na verdade, esta ilha é um montículo isolado de coral petrificado e cactos gigantes e está localizado dentro do Salar de Uyuni a 3.656 metros de altitude.

Visitamos o salar na época seca, que vai de Abril a Novembro, não tivemos o famoso espelho do salar. O salar seco é branco…

A paisagem do lugar é incrível, conseguiu superar todas as minhas expectativas!! É um mar branco enorme a perder de vista!!

Nenhuma fotografia consegue mostrar aquela realidade!! Só indo lá… Não tenho dúvidas que é uma das paisagens mais espectaculares que já vi até hoje!!

No último raid que o Mário Pinto havia feito na Bolívia em 2016, havia no grupo um casal que fazia geocaching e encontraram uma geocache numa das ilhas do salar. O Geocaching é um jogo ao ar livre, no qual se utiliza  um receptor de navegação por satélite, como o GPS, para encontrar uma geocache colocada em qualquer lugar do mundo. A geocache é uma caixinha fechada à prova de água que contém um livro de registos e alguns objectos, como moedas ou bonecos, para troca. Retira-se o “tesouro” que está na cache e coloca-se outro. Uma espécie de caça ao tesouro. Os amigos do Mário deram-lhe as coordenadas, para que ele a encontrasse outra vez, andamos a procura e o Antonio encontrou… Foi um momento lúdico, muito engraçado!! 

Ao fim da tarde voltamos para o nosso hotel maravilhoso!! Um banho na piscina interior, jantar e descansar. No dia seguinte atravessaríamos outra vez o salar, mas agora noutra direcção.

Após o pequeno almoço, deixamos o hotel e nos dirigimos novamente ao Salar. Dessa vez íamos a procura da caverna do Diabo, que acabamos por encontrar.

Ao deixar o salar, encontramos alguns bancos de água da chuva, embora insuficiente para fazer o tal espelho do salar, fizeram a diversão do grupo!!

Deixávamos o salar, o nosso destino agora seria a pequena cidade de S. Juan, no meio do nada. A partir daqui, o pó seria nosso companheiro nas estradas, as casas simples, e raras, a gente humilde, os lhamas, vicunhas e algumas emas.

Esperava-nos um albergue simples, mas muito limpo, o que até parecia impossível no meio de todo aquele pó. Tinha água quente para os banhos, e dormimos quentinhos. Eu ia carregada com um pijama polar e um gorro daqueles de orelhas, para dormir à noite, morria de medo de ter frio. Mas não… o quarto estava relativamente quente, e os edredons fizeram o resto. A luz da mesinha de cabeceira não acendia… não podia ler o meu livro… foi o cenário ideal para que eu refletisse em tudo o que vira naqueles dias… a beleza descomunal do salar, com aquele branco, tão branco que quase cegava, obrigando a usar óculos escuros. Pensava na pobreza que tinha visto pelo caminho, terrenos áridos, que me pareciam não ser propícios à plantação, estradas cheias de pó e poucos transportes, casas muito simples… pensava naquele senhor que no caminho esteve a falar sobre a plantação de quinoa, principal fonte de cereais naquela região (e eu nem sabia que havia três tipos, a branca, a vermelha e a negra…), os grandes rebanhos de lhamas, principal fonte de proteínas daquela população… Pensava na sorte que tinha em poder ver todas aquelas maravilhas… esse povo provavelmente nunca ia nem a Potosí… mas havia escolas em cada pequena cidade e um campo de futebol… às vezes mais que um!!! Até vimos uma quadra de Squash… (afinal depois vi na net que é um desporto bastante popular na Bolívia, tem até uma seleção nacional)!

Dormi bem… sem frio… a cabeça leve e um sono pesado… No dia seguinte a aventura continuava, pelo caminho ia ver umas lagoas e depois chegaremos ao Deserto do Atacama no Chile… Mas isso… fica para o próximo episódio!!

DICAS:

LINGUA: Espanhol

MOEDA: Boliviano (1€ = 7.59 BOL); Peso Chileno (1€ = 793 Pesos);

VISTO: Não é necessário para nenhum dos países.

PASSAPORTE: mínimo 6 meses de validade a contar da data de regresso.

VACINAS: Confirmar se o Programa nacional de vacinação (PNV) está atualizado.

Vacinas obrigatórias: Febre Amarela. O Certificado internacional de vacinação para a Febre Amarela: não é obrigatório, apenas será necessário para viajantes com idade superior a um ano, provenientes ou em trânsito no aeroporto de uma zona de risco de transmissão de Febre Amarela.

Vacinas a considerar: FebreTifóide, Hepatite A, Hepatite B e Raiva.

CLIMA: Em Maio – Muito frio noturno (min. -5ºC) e algum calor diurno (máx. 30ºC). Amplitude térmica gigante!

DICAS:

Com quem ir?

JIPAVENTURAver aqui – São os organizadores das minhas aventuras em 4×4. Organizam os mais espectaculares raids 4×4. Passeios de jipe por locais fantásticos nos 4 cantos do mundo em total segurança, conforto e convívio. Não fazem anualmente Bolívia/Chile – ver programa 2020.

Cruz Andina Travelver aqui – embora não fizesse com eles, a maior parte dos jipes que encontramos no caminho eram da Cruz Andina. Tem programas de 3 /4 dias, saindo de S. Pedro Atacama no Chile ou Uyuni na Bolívia. Tem vários preços que incluem diferentes tipos de hospedagem, tours acompanhados por Guia/Motorista.

Dicas – ONDE DORMIR?

SUCRE

Hotel Independencia – Veja aqui – 4* – Ótima localização.

Em POTOSÍ:

Hostel Colonialver aqui – excelente localização, em pleno Centro Histórico de Potosí.

Em SALAR DE UYUNI:

Hotel Palácio de Sal – clique aqui – um hotel fantástico!!

Em San Juan:

La Magia de San Juan – Hostal Bar – veja aqui – uma agradável surpresa. Muito limpo, funcionários prestativos. Comida boa.

Dicas – ONDE COMER?

Em SUCRE:

Abis Caféclique aqui -pequenos Almoços, almoços rápidos, bom atendimento, comida bem elaborada e preço muito bom!! Adorei a quesadilla de carne!!

La Taverne – do Chef Alvaro Michel Loayzaveja aqui – ambiente aconchegante, comida muito boa, bom atendimento, preço justo.

Metro Caféveja aqui – Junto a Plaza 25 de Mayo em Sucre. Sanduíches maravilhosos, sucos/batidos e sobremesas maravilhosas, a muito bom preço.

La Posada – veja aqui –Restaurante do Hotel Boutique La Posada, muito bom. O plato Andino, uma espécie de ninho formado por carne desfiada é maravilhoso.

Em POTOSÍ

Cafe Restaurant 4.060veja aqui – Pizzas maravilhosas, feitas em forno de lenha.

Rita Pinheiro

Olá!! Meu nome é Rita Pinheiro e vamos viajar juntos!! Acho importante que me conheças, para que possas confiar. Vivo em Braga, uma cidade no norte de Portugal. Sou casada, tenho 2 filhos e uma neta. Sou médica de família, e adoro viajar!!!

This Post Has 9 Comments

  1. Maravilha….quero ir

    1. Então?? É começar a amealhar!! Imagino as tuas fotos num lugar daqueles!! 😍😍😘😘

  2. Fantásticas fotos Rita e uma bela descrição desa região. Abre mesmo o apetite de lá ir. Obrigada.

    1. Obrigada Leonor!! Tenho certeza que ias adorar!!! 😘😘

  3. Adorei essa viagem, também a fiz com o Mário Pinto!
    O seu relato fez-me reviver tudinho!Está fantástico, parabéns!

    1. Muito obrigada Teresa!! De certeza partilhamos as mesmas emoções!! Uma viagem fantástica!!! 🙏🙏😘😘

  4. Rita… Embora não vá vivo contigo todos esses momentos maravilhosos. Mereces tanto, mas tanto… Quem sabe um dia… Hoje a jackpot no Euromilhões… Minha amada amiga.

  5. Que erro … Há… É a emoção.

  6. Quero ir!!!!💙💙
    lindo post!
    Você escreve tão bem! Obrigada!!

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